noventa e nove % do que está escrito aqui aconteceu, os outros um por cento são as adaptações.

 

Aquele mesmo celular…

… aquele mesmo maldito celular, que o acordava quando mais queria dormir, que o lembrava dos compromissos que não queria fazer, que não funcionava quando precisava dele. Aquele mesmo celular, tocando…

… não atendeu. E ele desistiu de tocar.

E ás vezes isso acontecia, o celular tocava, ele ignorava. Quando atendia, chorava. Mas chorava quieto, em silêncio, pois tinha que ouvir, ele gostava de ouvir. Gostava de ouvir aquelas palavras sussurradas, pois sempre era tarde da noite e os dois conversavam durante horas… quer dizer, ele ouvia durante horas. Todas as histórias, acontecimentos, fofocas e reclamações. Ele gostava de ouvir. Mas o que ele mais gostava de ouvir era uma esperança, ela as vezes dava esperança, as vezes não. Mas ele sempre ficava esperando, mas na verdade nunca vinha. Aquela esperança há muito não vinha e ele já não a esperava mais. Se conformava com seu cigarro apagado e sua cerveja barata, sentado à beira da sacada, olhando o movimento da rua abaixo dele. Tudo fluia, corria, e ele, parado no tempo.

“Não chore…” - disse ela. Então ele chorou.

Anonymous asked
como você tá?

tamo aê!

A mesma rua…

… cheia de bêbados caindo ao chão, pedintes mendigando alguns trocados e mulheres da noite, fazendo o que elas normalmente fazem. A mesma praça, cuja fonte estava desativada fazia anos, o mesmo caminho que ele sempre seguia, do trabalho até a casa e da casa até a conveniência para se abastecer de cigarros. Era uma rotina monótona, mas nem sempre foi assim. Tinham dias em que ele passava por este mesmo trecho sorrindo, brincando, gargalhando, sempre acompanhado. Agora era só mais uma dessas praças cheias de moribundos, desempregados e pessoas sem um rumo na vida. Ele se encaixava, tinha perdido o rumo, tudo o que se empenhava para fazer, do nada não valia mais a pena, de tal modo que pediu férias, logo, não estava trabalhando. E o que mais seria ele, se não mais um moribundo numa dessas praças quaisquer?

A noite avançava devagar enquanto ele caminhava por entre tudo o que ele mais odiava, lembranças. Passou pela loja em que comprou o presente de dia dos namorados mais divertido possível, agora ele não suportava mais ouvir o sapo cantar. Deu uma breve olhada dentro da joalheria em que comprou a primeira aliança deles, que quebrou, e soltou um leve suspiro de desaprovação seguido de um comentário sussurrado: “Eles trabalham pra isso e nem isso fazem direito”. Um pouco mais à frente viu o supermercado, onde ele sempre comprava o essencial para aqueles que seriam os melhores jantares possíveis, com direito a Coca-Cola e estrogonofe de micro-ondas. Passou também pelo ponto de ônibus, abarrotado como sempre, aonde foi o início de tantas noites memoráveis, ou dignas de esquecimento. Quando olhou para trás, já tinham-se ido mais de 8 quadras, e ele não sabia se continuava ou se voltava. Pensou em voltar quando recebeu uma ligação, um parente se encontrava no hospital, perguntaram se ele iria vê-lo, ele respondeu que iria no dia seguinte, a conversa se encerrou aí, e logo depois disso ele perdeu o fio da meada e se acabou na mesma decisão de novo, continuou a andar e logo descobriu um butéco sujo, que servia cerveja em copos americanos, tinha vários trabalhadores cansados, após seu dia de serviço, espairecendo ao som de uma dupla sertaneja qualquer e jogando sinuca. O dono do bar atrás do balcão entendeu o sinal que ele fez com a mão e serviu-lhe uma cerveja. Estava quente, não o clima, a cerveja, e ele decidiu acabar aquela garrafa e dar o fora dali. Na volta à sua casa passou pelos mesmos lugares que tinha passado na ida, agora com as luzes desligadas, sem atendentes com cara de sono e clientes exigentes demais para suas classes sociais. Decidiu então entrar no velho pub que eles sempre frequentavam, para tirar aquele gosto de cerveja quente da sua boca e poder fumar um cigarro em um lugar mais adequado.

Ao entrar no bar, avistou alguns jovens, após seu horário de estudo se divertindo, alguns adultos comemorando algo que ele não pode adivinhar, o dono do local, sempre sorridente tomando uma de suas cervejas prediletas, as atendentes zanzando de uma mesa em outra e os copos… sempre sujos, pois como já disse, era impossível manter os copos daquele lugar sempre limpos devido ao tamanho movimento daquele bar. Foi quando seu olhar se perdeu pelo lugar e ele avistou uma mecha de cabelos ruivos esvoaçando-se e sumindo no meio da multidão. Na hora seu coração foi à boca, sua barriga se revirou, e seus pensamentos ficaram mais anuviados ainda. Ele cortou caminho entre atendentes, jovens, velhos, bêbados e sóbrios até encontrar o objeto de sua atenção, mas nada encontrou, um sentimento leve de desespero o assolou por um momento quando novamente viu o que procurava, saindo do local que acabara de entrar. Saiu correndo, derrubando um copo sempre sujo, de uma mesa ao seu lado, esbarrando em duas garçonetes que se desculparam de imediato, tropeçando no rodapé de entrada e quando finalmente chegou ao lado de fora, ali estava, de costas. Aproximou-se devagar, com medo de qual fosse a reação que viria após sua ação, o coração acelerado, os olhos úmidos descrentes do que viam, as mãos tremendo e a respiração rápida. Estava a menos de meio metro da pessoa e arriscou uma saudação. Ela se virou, sorriu, respondeu a saudação. Mas não era ela. Que droga.

A mesma casa…

… a cristaleira com variados copos, não tinha mais graça, era só a mesma cristaleira. O pijama usado em cima da cama vazia, não era mais nada além de um pijama. As xícaras de café, compradas com o intento de deixar um café da manhã mais divertido, não faziam mais sentido. Os quadros e suas figuras famosas dentro deles pareciam não se importar com o que acontecia, e de fato, o faziam. Tudo estava ali, mas não no lugar certo. Uma rápida passada pela casa e ele já sentia o coração apertar, olhava um porta-retratos em branco, lembrando daquela que um dia o habitou, olhava as janelas fechadas que costumavam ficar abertas para a luz entrar no apartamento e o mural de recados ao lado da porta onde por muito tempo se comunicaram, quando sem tempo. Aos poucos percebia o que faltava, queria se mudar, correr dali, nunca mais entrar naquela casa que só lhe trazia lembranças e nada mais podia lhe oferecer, nada além de um sono perturbado e um despertar frio, sem cor.

Saiu pela porta, e esqueceu-se de trancá-la de propósito, esperava no fundo do seu âmago que alguem roubasse aquele lugar, tirasse todas aquelas lembranças que só lhe causavam angústia e sofrimento. Desceu a rua e foi à uma conveniência, comprou cigarros e uma cerveja, acendeu um deles, deu um longo trago e depois um longo gole, nada parecia ter gosto, nem o tabaco, que vinha matando-o lentamente durante cinco anos, parecia ter efeito contra o que sentia agora, simplesmente, não sentia. Não sentia nada, acordava, trabalhava, dormia, sem sentir, com a mesma cara, evitava lugares amontoados de gente, tinha medo que lhe perguntassem o que andava acontecendo, e quando perguntavam sempre respondia com um sorriso desconcertado: “Não é nada, fui dormir tarde hoje e agora me sinto cansado”. O que não era totalmente mentira, pois passava horas se revirando na cama, dividido entre o sono e o choro, entre o cansaço e a aflição, a lembrança nítida e a vontade de esquecer. Se lembrava de todas as vezes que riram, choraram, brigaram e se amaram naquela cama, de quando pediam comida e jantavam na sala, gargalhando um do outro quando derrubavam comida no chão, dos dias em que passavam a noite em claro, vendo um filme interessante, ou alguma das diversas séries que ela tinha no computador, das vezes em que entravam pela porta brigados, e saíam se beijando. Tudo isso, de uma vez só, sufocando os pensamentos, derrubando lágrimas dos olhos, anuviando uma decisão.

Então ele lembrou algo que um dia lhe disseram, era algo sobre ‘ter amor próprio’ ou alguma coisa desses livros de auto-ajuda, ele não gostava de livros de auto-ajuda, ele pagava o psicólogo para não ir, a psicóloga muito feliz por ter uma hora de descanso, é claro, não reclamava, ele ignorava os pedidos constantes de procurar ajuda para passar por essa fase que ele afirmava vorazmente não estar passando, e assim pensava, o que era esse tal de amor próprio que só ouvia dizer, se tudo o que sempre pensou era em se deixar em segundo plano quando se importa com alguém. Ele sempre ficou em segundo na sua vida, sempre tentou agradar aos outros mais do que à ele, mas doía tanto que ele acabou não agradando ninguém. E nos ínfimos goles para curar essa dor, ele se perdia na embriaguez, e acabava causando toda a dor que lhe infrigiram, de volta. Amor próprio, ele se perguntava o que ela quis dizer com isso quando disse. Ele se perguntava o que estaria ela fazendo agora, talvez numa festa… talvez com outra pessoa, e quem sabe, por causa disso, feliz… ou talvez ela simplesmente estivesse dormindo, sem saber de nada que se passava a alguns quilômetros daquele sono tranquilo.

O mesmo bar irlandês…

… os mesmos copos sujos, porque em um lugar como aquele, é impossível manter limpos os copos de todas as pessoas devido a alta rotatividade do pub. E na mesma mesa que sempre se sentavam, lá estavam mais uma vez, naquele botequim abarrotado de pessoas, vozes, fumaça, tilintar de copos, palavras chulas, ordens gritadas detrás do balcão e algo inaudível passando na tevê.

Após uma longa tragada ele expirou a fumaça com um suspiro.

- Você não é a mesma…

- Eu sempre fui a mesma, você só não queria perceber.

Outra longa tragada seguida de um suspiro.

- Claro que não, tudo dava certo antigamente…

- Você era mais flexível…

- Você também.

Nesse momento, um grupo de pessoas na mesa ao lado deles começou a derrubar um número anormal de copos que os grupos que vão àquele bar normalmente derrubam. Estavam embriagados, chegaram cedo ao local e arrumavam briga pois se recusavam a pagar a conta, que aparentemente estava muito alta, e faziam o máximo para tentar enrolar o gerente. Ele apenas olhou, do jeito que sempre olhava quando desaprovava algo. Ela gostava daquele olhar, mas não gostava. Porque por mais que gostasse, odiava não saber o que ela pensava, e naquela hora, ela não fazia a mínima idéia.

- Fala comigo… O que você tá pensando?

- Não estou pensando em nada… - um gole no copo de cerveja - você sempre acha que eu estou pensando em algo.

- Você sempre está pensando em algo, só não me fala.

- Na maioria das vezes eu penso em você.

- É isso que passa pela sua cabeça?

- Também.

- Eu não quero que você se afaste, todo mundo lá em casa gosta de você.

- Não acho que vou passar mais natais com vocês por enquanto.

- Deixa disso… Você sabe que sempre é bem vindo por lá.

- Não é isso, só não gosto de estar no mesmo lugar que você se não for com você.

- Eu te expliquei mais de uma vez tudo o que eu penso… Eu preciso disso, por enquanto. E eu sei que você também precisa.

- Talvez não.

- Depois de tudo o que aconteceu, você sabe que sim. E além do mais, é dar uma chance a isso, do mesmo jeito que nós nos demos chances um monte de vezes.

- A idéia não me agrada…

- Eu não posso fazer nada quanto à isso, me desculpa.

- Eu sinto sua falta… ás vezes…

- Quando?

- Quando eu levanto da cama, quando eu escovo os dentes, quando eu almoço, quando eu dou risada, quando eu choro, quando eu vejo um filme, quando eu ouço uma música, quando eu tomo banho e quando fumo um cigarro, quando assisto tevê e quando leio o jornal, desde quando eu abro meus olhos até a hora que os fecho na minha cama. Eu sinto sua falta todo o tempo.

- Não quero começar a chorar aqui, e eu preciso ir embora, já passa da uma da manhã e eu preciso trabalhar amanhã.

- Dorme em casa, digo,não comigo, na minha cama mas eu durmo no sofá. Amanhã te levo pro trabalho.

- Tá bom…

Eles se levantaram, brindaram e viraram seus copos, passaram pelo grupo que ainda tentava barganhar as várias bebidas que tomaram, passaram pelas nuvens de fumaça, passaram pelos copos sujos e vazios de mesas há pouco desocupadas, dividiram a conta, acenderam um cigarro cada, passaram por jovens tentando entrar com idendidade falsificada até chegarem à calçada. O motivo pelo qual eles sempre escolhiam esse bar é o fato de que ele fica apenas a alguns quarteirões da casa dele, e eles sempre acabavam dormindo por lá quando passavam a noite no pub. Estava frio, ele ofereceu um abraço, ela aceitou e assim eles foram. Passaram por prostitutas, por bêbados, por carros estacionados e por semáforos vermelhos, verdes… Mas nada chegava a ganhar a atenção dele. A não ser ela, que absorta em seus próprios pensamentos, não chegava a perceber nada em volta. Ele destrancou o portão, subiram as escadas e adentraram pela porta, O apartamento em nada havia mudado, os velhos quadros com frases e fotos de figuras famosas ainda pendurados nas paredes, a cristaleira com os copos desenhados, vindos de diversos lugares do país e do mundo, de suas viagens ainda estavam lá. A mesma cama de casal que ocupava metade do quarto, ainda estava lá. Ela se deitou, pediu o pijama que sempre usava, ele apontou o travesseiro, aonde ele sempre estava. Ela trocou de roupas, e deitou, ele também, de calça jeans e camiseta. Ela se cobriu e o abraçou. Ele deu um longo suspiro e pensou:

“Tudo ainda está aqui, mas não está.”

rozanes:

ReCraft Your Imagination: Discover the work of Robert Montgomery

rozanes:

ReCraft Your Imagination: Discover the work of Robert Montgomery

(Source: robertmontgomery.org)

wingstodust:

immolateyourself:

mheinrichs:

omg

OMFG

ROFLMFAO They didn’t find a picture where Jennifer looks old, then you have Iggy Pop.Still love them anyways.

wingstodust:

immolateyourself:

mheinrichs:

omg

OMFG

ROFLMFAO They didn’t find a picture where Jennifer looks old, then you have Iggy Pop.
Still love them anyways.